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As mulheres hoje: quem é afinal esta "happy woman"?

Terça-feira, 29.11.11

 

Quando era miúda a minha mãe assinava a Marie France. Nos anos 70 achei piada à refrescante Cláudia brasileira, sobretudo pela roupa de Verão e pelas sugestões sobre tratamentos da pele, cabelos e maquilhagem (interesses naturais de uma adolescente). Nos anos 80 coleccionei a Decoração Internacional, dava-me uma sensação de estabilidade talvez, os espaços preenchidos ou deixados vazios estrategicamente. Nos anos 90 foi a vez da Grande Reportagem - a única, a original, não a sucedânea -, a Première francesa, e algumas especializadas em gestão e marketing, sobretudo as vocacionadas para as novas empresárias que começaram a florescer por cá nessa década. A partir dos anos 0 de um novo século, foi a variedade que passou a contar: uma miscelânea de interesses desde a roupa, as casas e jardins, gestão, marketing, reportagens sociológicas, e o inevitável cinema.

Este mês de Novembro foi a vez de uma Happy Woman, para onde de vez em quando lançava um olhar curioso mas que me soava a um conceito provocador e revelador dos tempos actuais.

 

À primeira vista esta interpretação fiel dos tempos actuais pode parecer traduzir uma perspectiva de felicidade instantânea, como se a pudéssemos encomendar, como se adquirir alguns produtos ou consumir alguns serviços nos pudesse tornar mais felizes, ou melhor, como se a privação desses produtos e serviços nos tirasse alguma felicidade. No entanto, sejamos justos: depois de adquirida alguma liberdade de movimentos, é muito difícil voltar à confinação de um espaço limitado, depois de adquirida alguma qualidade de vida é terrível abdicar dela.

Mas a revista revelou-se muito mais do que esta minha ideia inicial:

Dá para identificar o seu público-alvo, para já o miolo de uma fatia provavelmente maior: mulheres entre os 25 e 45, bem sucedidas (entenda-se pelas regras de sucesso actuais: status financeiro médio e médio alto). Uma fatia mais abrangente pode alargar-se perfeitamente a jovens estudantes a partir dos 15 e profissionais adultas com mais de 45 (não resisti...)

A revista é competente, trata dos assuntos essenciais do dia a dia destas mulheres, não apenas a imagem, o que vestir e como, mas o seu bem-estar geral: trabalho (aqui entendido como carreira), os relacionamentos afectivos (aqui abrangendo todas as possibilidades, como um menu... ups!, já fiz uma associação estranha aqui...), a saúde (esta área está particularmente bem concebida com informações úteis sobre as especialidades médicas a que se pode recorrer, como distinguir os serviços de qualidade, refiro-me a esta específica de Novembro), o lazer e o descanso das guerreiras (hotéis, spas, restaurantes), sim, porque o miolo desta fatia social é composto por autênticas guerreiras que se movem num mundo muito competitivo, a nível profissional e a nível relacional.

 

Na era do Facebook, dos “like” e “dislike”, das trocas de informação entre amigos e fãs, uma revista para ser bem sucedida tem de assegurar informação:

- de qualidade, correcta e actualizada;

- organizada, com uma clara distinção entre o que é importante e o que é irrelevante;

- original, com uma perspectiva única e interessante;

- e oportuna, respondendo às expectativas do seu público-alvo.

Em todos estes requisitos, a Happy Woman corresponde de forma competente. A informação sobrepõe-se à publicidade, tornando-a ainda mais eficaz: para cada peça é dada a informação relativa ao preço de loja, o que é fundamental na era da internet e das aquisições à distância de um clic. Desta forma, pode-se elaborar uma lista personalizada e organizar as compras por prioridades. São dadas ainda sugestões sobre que tipo de roupa escolher de acordo com a silhueta de cada uma. A informação privilegia a escolha de estilos diversos, e neste item a revista é original: para cada estilo há uma imensidade de peças, como um grande bazar, sem ter de sair de casa. É também nesta característica da informação que a revista traduz a sociedade actual, virada essencialmente para o social, a exposição, o público, em que as personagens mais influentes em termos de estilo, atitude e comportamentos são provenientes do espectáculo: cinema, música, design de roupa, etc. Hoje uma actriz ou cantora conhecida tem seguidores e pode influenciar escolhas importantes, mesmo a nível político (lembram-se da eleição de Obama?)

 

Mas quem é afinal a “happy woman”?

Começaria pela comunicação: franca, directa, sem preconceitos, aberta a novas experiências, muito prática, algum bom senso e muita ousadia. Preocupada com a imagem, mas sobretudo com o sucesso na carreira e nos relacionamentos. Exige muito de si própria, é competente no que faz e quer ser reconhecida por isso, e exige competência dos outros também. Nessa perspectiva, é muito ambiciosa: tudo em um, conciliar tudo e tudo funcionar.

É exigente com a qualidade dos produtos e dos serviços, recorre a muitos deles e quer que correspondam às suas expectativas, isto é, que funcionem. Subentende-se que come mais fora do que em casa ou que, se isso acontece, traz a comida já confeccionada ou pré-cozinhada. Provavelmente também na roupa recorre à lavandaria ou contrata esse serviço em casa.

É muito autónoma relativamente às decisões que toma, às suas escolhas, mas precisa da aprovação social, tem sede de informação sobre o que é in, o bom look, mas também os lugares a ir e as pessoas a conhecer. No mundo onde se move isso é avaliado e pode determinar a integração no grupo em que pretende inserir-se. É essencialmente urbana e sofisticada ou, pelo menos, de uma simplicidade sofisticada.

Em termos da saúde e dos cuidados consigo própria, ainda não estamos na preocupação propriamente dita da manutenção da juventude (congelar a idade), pois a curva etária dessa preocupação, na sua forma obsessiva, parece estar agora a deslocar-se para a faixa dos 45 aos 65, e a “happy woman” ainda não se dirige preferencialmente a essas mulheres (de novo não resisti...)

 

O mundo onde se move esta “happy woman” é um mundo de imensos desafios e obstáculos. Daí a minha admiração pela sua capacidade de resistência: ao stress, em primeiro lugar, ao desgaste emocional, à competição desleal. É, de facto, notável.

O que mais me agrada é a ausência de preconceitos, essa largueza mental. Pode parecer ameaçador para alguns ou até decadente para outros, mas a abertura a novas experiências pode ter o seu lado rebelde e refrescante, desde que se tenha consciência da realidade envolvente. E a “happy woman” parece ter os olhos bem abertos.

 

Irei continuar esta reflexão sobre as mulheres hoje, no mundo de hoje, e sobre esta “happy woman” que o interpreta na perfeição.

 

 

 

Dois filmes a rever que identificam o início do percurso desta “happy woman”, embora isso só seja perceptível a olhares mais atentos: um, Uma Mulher de Sucesso, de Mike Nichols, com Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver. Aqui percebe-se que hoje informação é poder, é influência, é um trunfo profissional eficaz; outro, Guerra, S.A., de Joshua Seftel, com John Cusack, Marisa Tomei e Hilary Duff, antecipa um mundo caótico que está mais perto de nós do que julgamos. Reparem no papel da cantora, Yonica Babyyeah, e da sua adaptação e sobrevivência num mundo caótico em desintegração. Há sempre o outro lado do espectáculo. Mas o seu poder, enquanto influência de estilo, atitude e comportamentos, independentemente da armadilha que implica para a própria, é enorme.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:08

Os meus anos 70 - quando nos pomos a caminho

Domingo, 20.11.11

 

De Cat Stevens a que mais ouvi nos meus anos 70 foi a Morning Has Broken que me fartei de cantar. Mas não é dela que vou falar hoje, é de temas que redescobri no Youtube.

Talvez porque não os tenha voltado a ouvir, surgiram-me agora despidos de memórias intermédias. Porque a nostalgia é muito selectiva: ligamo-nos a imagens, sensações, emoções agradáveis, e resgatamo-las intactas anos mais tarde.


Do mais conhecido Tea for the Tillerman (70) escolhi On The Road to Find Out e Into White.

Do Teaser and the Firecat (71) escolhi If I Laugh e Bitterblue

Do Catch Bull at Four (72) escolhi 18th Avenue (Kansas City Nightmare) e House of Freezing Steel.

Do Buddha and the Chocolate Box (74) escolhi King of Trees e Sun/C79. Esta fase é a minha preferida pela luminosidade e frescura que espalha no ar, uma vontade de nos pormos a caminho, de iniciar um qualquer percurso. Não é apenas a noção de espaço ilimitado, é essa genica que encerra, que se baseia na nossa natureza mais terrena.


Foi uma época de sonhos, sem dúvida, mas também de muita garra interior. O que aconteceu pelo caminho para tudo isto se perder?

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:36

Os meus anos 70 - límpidas ressonâncias

Terça-feira, 15.11.11

 

É nesses dias claros dos meus anos 70 que me reencontro com a limpidez do essencial, a claridade do essencial, a simplicidade do essencial. Essa simplicidade já não a encontramos facilmente. Mas já a vi em certos, raros, olhares. É essa inocência original que eu mais aprecio.

 

A primeira vez que ouvi Joni Mitchell foi em Big Yellow Taxi e All I Want. Adorei esta voz e esta lógica fora do habitual. Mas quem ouvir Joni Mitchell na fase do For The Roses percebe que há um lado muito inteligente e cúmplice na forma como pega nos grandes temas da vida. Isso é o mais refrescante destes anos 70, pelo menos como os absorvi.

 

Aqui vai a sua voz límpida, inteligente e sensível: Woman of Heart and Mind, Cold Blue Steel and Sweet Fire, Electricity, Blonde in The Bleachers. É tão difícil escolher...

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:50

Livros e filmes: todos os ingredientes de uma aventura

Sábado, 12.11.11

 

Júlio Verne foi um dos meus primeiros autores da pré-adolescência que li entusiasmadamente. Viagem ao Centro da Terra, uma aventura fantástica digna de heróis mesmo que fossem pessoas comuns.

 

Veio depois a Volta ao Mundo em 80 dias. Aqui temos todos os ingredientes de uma aventura: ousadia, intrepidez, coragem, obstáculos naturais e humanos, inúmeros perigos, amizade e romance, não necessariamente por esta ordem... porque neste percurso atribulado tudo se mistura deliciosamente. 

Talvez por tudo isto a sua adaptação ao cinema tenha sido sempre feliz. No entanto, a minha preferida é a de 1989, uma produção para televisão com Pierce Brosnan (Phileas Fogg), Eric Idle (Passepartout), Julia Nickson (princesa Aouda) e Peter Ustinov (detective Wilbur Fix).

 

Destaquei algumas partes do filme que redescobri no Youtube porque são tão deliciosamente refrescantes na sua simplicidade desarmante que resiste ao tempo, porque a simplicidade do essencial resiste sempre, nunca se torna obsoleta. As personagens surgem-nos aqui muito bem representadas pelos actores, de tal modo que nos interrogamos se Pierce Brosnan não terá muito deste Phileas Fogg, isto é, se não terá projectado uma parte de si neste Phileas Fogg (aposto que sim), e se a própria Julia Nickson não será mesmo uma verdadeira princesa (aposto de novo). Do Passepartout não tenho qualquer dúvida, Eric Idle vestiu-lhe a pele na perfeição.

  

Logo desde o início em que nos é dado o mote, tudo ganha uma emoção especial à medida que os obstáculos vão sendo ultrapassados. Reparem bem nesta sequência, nas lines e na acção, em perfeita sintonia, no ritmo e na antecipação.

 

No livro a minha preferida é, naturalmente, o salvamento da princesa Aouda. No filme não lhe fica atrás. Não imagino melhor Phileas Fogg para tão difícil tarefa.

Aqui, no meio da aventura, o romance, já anunciado em pequenas doses, surge-nos sem equívocos, óbvio, à vista desarmada. Reparem neste Phileas Fogg subitamente atrapalhado e na reacção de uma Aouda subitamente zangada. Esta sequência está perfeita.

 

Esta adaptação de Júlio Verne revela-se aqui bastante criativa, com um toque dos velhos guiões de Hollywood. Descobri no IMDB que essa marca se deve a John Gay, um guionista com várias nomeações na sua carreira.

Também o tema musical é refrescante. Já repararam como nos anos 80 se escolhiam temas assim, simples, alegres, como este, a lembrar navegações marírimas e comboios a atravessar planícies?


Como nas melhores aventuras, o final é perfeito, mas reparem que as personagens tiveram de se adaptar pelo caminho, a própria aventura mudou-os: Phileas Fogg descobriu que é possível mudar e Aouda mostrou-lhe isso mesmo. Será que na vida real isto seria possível? Queremos sempre acreditar que sim.

 

 

 

Nota: é com Júlio Verne e o mote aventura que inicio aqui a série "livros e filmes". Depois de um balanço sobre as coisas essenciais, verifiquei que há aqui posts que merecem ir para o saco da reciclagem e outros que, embora se mantenham oportunos, não revelam a minha verdadeira natureza jovial. Eu explico: a reflexão filosófica, sociológica e política que me acompanha desde a adolescência hoje cansa-me  e desgostas-me mortalmente. Se todos esses posts que dediquei a temas actuais que me impressionaram ou incomodaram soam tão efervescentes, é mais pela perplexidade que os assuntos me causam do que pelo entusiasmo. O maior disparate em que podemos cair é pensar que devemos expressar a nossa opinião sobre o que se passa à nossa volta, uma espécie de dever cívico, ao país ou à comunidade em que nos calhou viver. Devemos sim é cuidar da nossa tranquilidade, do que nos anima a viver dia a dia, a iniciar uma nova tarefa, a conhecer pessoas e lugares. Se conseguirmos cuidar do essencial que nos move, melhor transmitiremos a nossa ideia essencial, na nossa prática diária e pelo resultado do nosso trabalho. Assim, como vivi a maior e melhor parte da minha vida entre livros e filmes, e música, jardins, encostas e planícies, porque não falar do que realmente me acorda e põe a caminho, esse entusiasmo que nunca esmorece?    

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:11

O debate que ainda resiste está na blogosfera

Quarta-feira, 09.11.11

 

No meu tempo de liceu, logo após a revolution, debatíamos ideias filosóficas e políticas no café. A minha memória não é extensiva a nomes de cafés, só à sua luz e arquitectura interior. Este hábito de encontrar colegas e amigos no café, de conversar no café, de estudar no café, foi-se perdendo. Há anos que o café deixou de fazer parte do meu itinerário social, a não ser como lugar de encontro, e geralmente é dentro de uma livraria ou num espaço ligado a livros e a filmes.

 

No país o hábito do debate filosófico foi esmorecendo, ficou só o político, como se o debate político pudesse passar ao lado do filosófico e do sociológico. O debate perdeu profundidade, consistência, substância, politizou-se. Ao politizar-se acendeu-se. Foi o que se passou no Prec, por exemplo. E assim se manteve efervescente nos anos 80, mas a esmorecer gradualmente.

 

Hibernou depois, restando apenas algum ruído de fundo, nos anos 90. Para se reacender durante o governo de coligação PSD-CDS/PP. Depois do abandono de Durão Barroso, o clima social que se viveu dava para escrever um livro de psicologia social ou de sociologia de fenómenos estranhos como um nevoeiro (estão a ver os filmes de terror?), criados pela comunicação social (imprensa escrita, sem excepções, e canais televisivos). O clima estava montado. Até hoje. O debate possível foi neutralizado e esvaziado. Ficou a narrativa oficial, a alienação e o entretenimento.

 

Hoje é a blogosfera que vem substituir os cafés, como lugar de debate filosófico, político, sociológico. Um debate que nunca se verificou verdadeiramente na televisão, um espaço nunca tão vazio e monocórdico como agora.

Que resista pelo menos aí, o debate, até à sua completa extinção.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:40








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